Todo mundo sabe fazer Planejamento Estratégico

Entre os diversos processos, ferramentas e táticas realizadas na gestão de uma instituição, o Planejamento Estratégico é um dos mais importantes na hora de abrir um negócio ou de projetar o seu futuro. O termo refere-se a um processo sistêmico que permite definir o melhor caminho a ser seguido por uma organização, para atingir um ou mais objetivos, dentro de um contexto previamente analisado. Isso se faz analisando cenários, definindo metas e ações que permitirão chegar onde se deseja.

Já a SWOT Analysis (ou Análise FOFA, em português), é uma ferramenta a ser utilizada na execução do Planejamento Estratégico. Nela, busca-se identificar forças, fraquezas, oportunidades, e ameaças relacionadas à competição em negócios ou planejamento de projetos.

Mas estas técnicas servem apenas para grandes empresas? E os microempreendedores? Para responder a essas perguntas, no Blog AdC de hoje conversamos com Percival Caropreso, profissional de Marketing e Comunicação, há mais de 30 anos militando em causas socioambientais e integrante do Conselho Consultivo da Aventura de Construir.

Confira abaixo a análise a partir do diálogo com Percival!

Um microempreendedor pode (ou deve) usar o Planejamento Estratégico e a análise SWOT no seu negócio, ou isso só é reservado para as grandes corporações? A SWOT Analysis nada mais é do que uma ferramenta que organiza uma série de conteúdos referentes ao negócio. Então é óbvio que o microempreendedor pode utilizá-la para entender o seu mercado, entender o seu potencial e os seus riscos de sucesso ou de fracasso. Ele tem que fazer isso como uma questão de sobrevivência. 

Tanto o Planejamento Estratégico quanto a SWOT Analysis são dons que todos nós temos e trazemos desde o nascimento. É uma coisa inerente ao ser humano, como respirar, andar a pé, soltar pum, é natural da gente fazer isso. A diferença é que a gente intuitivamente faz como pessoa, e profissionalmente a gente faz como um cara de negócio, de trabalho. Aprender a fazer a SWOT Analysis nada mais é do que formalizar uma prática intuitiva que todo mundo já faz, de planejar.

Há muitos anos atrás, quando dava aula sobre Planejamento Estratégico, eu contava uma historinha: pense em um adolescente de 18 anos, que tem como objetivo passar o carnaval com os amigos na praia. Ele precisa da autorização dos pais, do carro e de uma verba dada pelo pai. Sem muita formalização, PowerPoint, planilha Excel, ele intui que precisa ser um filho exemplar algumas semanas antes do carnaval, para “amaciar o terreno” em que ele vai falar com os pais. Ele toma uma série de iniciativas, de práticas, de ações táticas para fundamentar a estratégia de convencimento dos pais. Por exemplo, busca o jornal na porta e leva para o pai na mesa de café da manhã, pergunta se o pai não quer que ele lave o carro, faz as compras, enfim, toma uma série de atitudes concretas e operacionais, que são táticas pertencentes a uma estratégia maior. 

Ao longo desse processo, ele está fazendo uma persuasão devagarinho. Em dado momento ele vai ter que comunicar o pai que quer passar o carnaval com os amigos e precisa do carro. O jovem vai encontrar o melhor momento e decidir como abordá-lo, seja com um discurso afetivo, lembrando o pai sobre quando ele tinha 18 anos, ou com um discurso objetivo, levantando os argumentos de tudo que tem feito até o momento para merecer a permissão. 

Tudo que esse adolescente fez foi um Planejamento Estratégico. Ele planejou, mesmo que de forma intuitiva e inconsciente, toda uma estratégia para alcançar seu objetivo maior. Para pensar no que iria fazer, ele precisou se perguntar quais são os pontos fracos e fortes da relação com o pai, quais são as oportunidades que enxerga, ou seja, precisou percorrer o processo de SWOT Analysis de maneira intuitiva. 

E voltando ao planejamento, se você não conhecer o seu mercado, que neste caso é o pai, você não vai tomar decisões eficazes. Se o jovem não compreender que tipo de expectativa o pai tem em relação à vida em geral, em relação ao papel que ele exerce na família e como ele funciona emocionalmente, o moleque nunca vai chegar a escolhas que produzam o efeito que ele quer. Qual é o objetivo? Passar o carnaval na praia com os amigos, levando o carro do pai. Qual a estratégia? Persuasão e convencimento por meio da abordagem emocional. Que ações eu vou tomar para isso se realizar? Tal, tal, tal. Assim ele terá feito o planejamento.

Para planejar você precisa tomar decisões e fazer escolhas. Agora, imaginemos aplicar esse pensamento para o microempreendedor que tá abrindo sua lojinha, sua cozinha doméstica de salgadinhos e docinhos, seu estúdio de gravação, enfim. Ele deve parar e pensar qual é o meu negócio? Qual é a minha área de atuação? É informática, moda ou  entretenimento e cultura? Quem mais está comigo? São concorrentes ou possíveis parceiros?

Deve, então, entender quais são os prós e contras do que os outros fazem. Entender os riscos no campo de atuação deles, que passará a ser o dele também. Elencar qualidades, virtudes e defeitos. Depois, ver o que tem para oferecer neste mercado, que possa ter valor e ser diferente do que já existe. Como divulgar e informar os consumidores dessa superioridade competitiva em relação aos concorrentes?

Precisa conhecer o público, tanto de forma factual, como por exemplo, idade, onde mora, quantas vezes por semana consome aquele produto, enfim, dados quantitativos. Mas também deve saber dados subjetivos, abstratos, como o que eles gostam, o que fazem no fim de semana etc. Precisa-se ter conhecimento do assunto, do público, do conteúdo e do mercado, pois isso é fundamental para o microempreendedor ter sucesso levando o negócio adiante.

E voltando à importância de se tomar decisões e realizar escolhas. Escolher significa selecionar o que serve e sacrificar o que não presta. Quando se diz que uma marca ou um produto é tudo, para todos, ele não é nada significativo. Quando você fala muito, você diz pouco. Diversas marcas grandes, na hora de realizar seus Planejamentos Estratégicos, ou quando lançam um novo produto, querem incluir todas as descrições possíveis. “Meu produto é o mais econômico, mas também é o mais veloz, e o mais desejado”, isso só significa que o público não vai entender a mensagem que você quer passar.

E isso é importante para os pequenos empreendedores. Não adianta falar que as coxinhas que produz são deliciosas e nutritivas e saudáveis, porque usa o óleo x e é mais barato e entrega em casa. O cliente precisa de uma síntese de tudo isso para ser atraído ao seu produto.

Por fim, a Aventura de Construir tem uma vantagem e mérito por ter um foco muito claro na sua missão, que é desenvolver a pessoa, sobretudo microempreendedores, pois a pessoa se desenvolvendo e tendo oportunidades, desenvolve também o território ao redor, melhorando as condições do todo. Tendo um recorte claro, e um norte a se seguir, todo o trabalho fica muito mais fácil.

Vinicius Dutra