Somos criaturas de hábito, e mudar de hábito é difícil: requer convicção, esforço, determinação e, como cantava Ringo com os Beatles, um pouco de ajuda dos amigos.

Nós e os microempreendedores que ajudamos não somos exceção. Saber como fazer o mínimo de contabilidade necessária é uma coisa, anotar todas as vendas e despesas e gastar a manhã de sábado para avaliar como foi a semana no seu negócio, é outra. Infelizmente, é a segunda que traz um efeito positivo.

Além dessa dificuldade comum, os empreendedores que atendemos têm tipicamente outros impedimentos: alergia a matemática (mas isso, pensando bem, acontece em qualquer camada social), às vezes analfabetismo, fragilidade familiar (quantos pais ausentes e mães solteiras).

Naturalmente, não atuamos como babás de ninguém, mas nos damos conta que para impactar de verdade esse público-alvo é preciso de uma ajuda que vai além do ensino de técnicas e competências. Uma palestra de duas horas ou um ciclo de 10 palestras de duas horas, não muda nada. Se uma dessas gera UM momento “a-há!” em alguém, já estamos no lucro. Oferecendo ciclos de palestras, acompanhamento constante, insistência sobre os fatores críticos de cada um – no tempo – pequenas mudanças para melhor acontecem: uma placa bem legível, um nome memorável, as contas da loja separadas daquelas da família… Os nossos pais sabiam: água mole em pedra dura tanto bate até que fura.

Essa companhia é essencialmente de pessoa para pessoa, e não tem mágica: é preciso de muito tempo e, para organizações com recursos limitados, os números que se podem colocar no site não são muito sexy. Seria possível inchá-los, focando em ações mais superficiais, mas qual seria a verdadeira utilidade?

Nós preferimos enfrentar o problema real e atravessar a nossa encruzilhada: como escalar? Entramos em contato com 2.000 empreendedores em três anos, geramos alguma mudança em 400: como atingir 20.000 deles sem aumentar na mesma medida o número de funcionários?

Pensamos em rede de voluntários atuando como mentores, assumindo assim o desafio de capacitá-los para garantir a inteligência emocional necessária e o foco metodológico da Aventura de Construir, com o microempreendedor ao centro como protagonista. Pensamos em fomentar redes de microempreendedores para oferecer suporte recíproco, mas encontramos uma desconfiança mútua profunda entre eles, embora – ultimamente – com novos pequenos sinais de abertura.

São tentativas orientadas a privilegiar melhorias de impacto real a qualquer estatística bacana e útil para o nosso marketing social.

Silvia Caironi

Adriano