Dia da Alimentação e o Trabalho Culinário

No último domingo, dia 16 de outubro, celebrou-se o Dia Mundial da Alimentação, data instituída pela ONU para consciencializar a opinião pública sobre questões relativas à nutrição e à alimentação.

Aproveitando este tema, e também em função da finalização da segunda etapa do projeto ProtagonizAqui, onde foi ensinado culinária tradicional venezuelana e brasileira para migrantes, trazemos para o blog AdC de hoje uma conversa com Laura Oliveira. 

Cozinheira e uma das doadoras de alimentos para a realização das aulas práticas do projeto, Laurinha falou sobre o trabalho, sobre os profissionais da área de Gastronomia e sobre a experiência do cliente.

Leia mais abaixo!

Laura Oliveira, também conhecida como Laurinha, é cozinheira e dona do Bottega 21, um gastrobar localizado no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Nascida na Bahia, cresceu na capital paulista. Formada em TI, trabalhou 11 anos na área de tecnologia, mas sempre quis trabalhar com culinária, o que faz há 7 anos.

Aventura de Construir: Laura, nos conta como você conheceu a AdC e o projeto ProtagonizAqui, e o que te motivou a realizar a doação?

O meu bar fica na Rua dos Pinheiros. Ao lado existe outro bar, chamado Barnabé, que é de uma amiga minha, a Lívia, que é muito amiga da Luiza, que trabalha na Aventura de Construir. Consequentemente a conheci, e ela comentou comigo sobre o projeto, sabendo que eu sou cozinheira. Me contou que era um projeto de capacitação para formar cozinheiros, com participantes imigrantes, e que estavam captando doações. Eu achei muito legal.

Ela me passou o contato da ONG, e a primeira pessoa com quem eu falei foi o Paulo, um dos responsáveis pelo projeto. Ele me explicou, contextualizou tudo e eu achei muito show todo trabalho, a forma como vocês fizeram tudo isso. E aí eu quis participar de alguma forma. Até cheguei a combinar para eu ir dar uma aula, mas não consegui participar por causa da compatibilidade da agenda.

AdC: E como foi o processo de doação? Como você decidiu a forma que iria ajudar o projeto?

Em um segundo contato, agora com a Raquel, pedi a ela uma lista de tudo que precisavam. Ainda não tinham conseguido as proteínas, e para um curso de capacitação de cozinheiros, o mais importante são as proteínas. Então me comprometi a conseguir todas as proteínas.

Eu sou da área há sete anos, trabalho com alguns fornecedores super de confiança na procedência, que você pode consumir de olhos fechados. Assim deu tudo certo.

AdC: Qual a importância de projeto como o ProtagonizAqui, que forma migrantes para trabalharem ou empreenderem na área de alimentação?

Eu acho muito bacana esse tipo de projeto, porque principalmente na nossa área, na área de cozinha, a profissão de cozinheiro ainda  é considerada um sub-emprego. Falta capacitação. 

Eu era sous chef executiva de um grupo de Gastronomia, então eu rodava diversas casas do grupo. E o que a gente mais vê dentro da cozinha são “cozinheirões”, um pessoal que manda muito na cozinha, e mal sabe ler e escrever. Isso porque na cozinha, teoricamente, não se exige um curso profissionalizante, você precisa apenas saber cozinhar. 

Então você vira um cozinheiro, exerce com excelência a sua profissão, mas não é bem reconhecido e bem remunerado porque você não tem um diploma. É considerado, ainda, um sub-emprego. Faltam projetos assim para tentar mudar esse cenário. É triste você ver o profissional ser subjugado, colocado em um patamar abaixo dos outros profissionais por causa disso. 

De certa forma há um preconceito enrustido, velado. Você vê a pessoa de uma área que estudou, que tem diploma, chegar na cozinha para falar com cozinheiro e não fala de igual para igual. E aí tem muitos lugares que abusam do funcionário, porque é uma pessoa que não tem muito conhecimento, não tem muito estudo e acaba se sujeitando a esse tipo de situação. Algo como pedir ao funcionário que trabalhe das 8 da manhã a meia-noite, dobrando o seu horário normal, e se não fizer ele não é um bom profissional, não veste a camisa da empresa. Você vê a pessoa se matando, se dedicando, mas ela não é bem reconhecida só porque não tem uma capacitação, um diploma.

Então eu acho que faz muita diferença esses projetos, porque é muito difícil. Você não consegue ainda esse reconhecimento, nem mesmo dentro da faculdade. A faculdade de Gastronomia não prepara a gente para o mercado, para a realidade da cozinha. Eu vejo que até em outros cursos que eu tive oportunidade de participar, junto a outras instituições, não se entra nesse detalhe, não se aborda o que a gente vai encarar quando entrar de fato na cozinha.

Esses projetos que são mais focados, mais específicos, acabam trabalhando de uma forma mais pontual, mais humana. Por isso que eu acho muito bacana. Sempre que eu tive a oportunidade de participar de algo assim eu fui, porque acho que vale super a pena. É uma oportunidade justamente para essas pessoas que não têm o mesmo acesso que outras.

E é uma profissão que eu acho maravilhosa, né. Eu sou apaixonada por cozinha, eu acho sensacional. Existe mercado, mas falta profissional disposto a trabalhar. É muito difícil achar cozinheiros hoje em dia. Justamente porque não é bem remunerado, não é reconhecido e por todo esse cenário que a gente vive, muita gente não vai atrás dessa área para se formar.  É uma profissão muito sacrificante e não valorizada, então todo o contexto é super válido para esse tipo de projeto de capacitação.  

AdC: No domingo celebrou-se o Dia da Alimentação, então, como cozinheira, qual a importância da comida para você? A gente sabe que alimentação não é só nutrição, não é apenas comer o necessário para viver, é muito mais. Como você descreveria?

Eu sei que soa meio clichê, mas se alimentar tem muita coisa envolvida: é cultural, é de fato viver uma experiência. Você consegue conhecer lugares do resto do mundo se alimentando de uma comida típica, por exemplo. Você consegue conhecer um pouco da cultura, de como aquelas pessoas pensam, de como aquelas pessoas trabalham e vivem através da alimentação. Isso porque é muito amor e muita dedicação ali envolvidos, de ingredientes que você coloca que fazem parte da sua cultura. 

Tem muito restaurante que fala que não quer só servir comida e bebida, e sim proporcionar uma experiência. E de fato esse é o objetivo. O meu bar é um bar de aperitivos italianos, onde a gente entra no detalhe da região de buscamos aquele alimento, aquele prato, de levar um pouco da cultura italiana para aquela pessoa. A gente explica da onde vem, como que faz, o porquê que eles comem daquele jeito em determinadas regiões da Itália. 

É uma experiência muito pessoal você ir em algum lugar comer, e você servir uma pessoa,  fazer uma comida para ela também é. 

AdC: Obrigado, Laura! E por fim, gostaria de acrescentar mais alguma coisa?

Essa foi a primeira vez que realizei uma doação assim, mas não sera a última. E, na minha posição, foi muito fácil porque vocês me mandaram tudo pronto: “a lista é essa, a gente precisa disso, de tal forma”. Eu só entrei em contato com os meus fornecedores, mandei entregar e combinei com vocês, então foi fácil. 

O trampo mesmo é o que vocês estão fazendo. É botar a mão na massa, ir atrás, fazer dar certo e acompanhar tudo. E isso não é para qualquer um, eu sei quanto é difícil. Já fiz trabalho voluntário em alguns lugares e não é fácil você dar continuidade àquilo. 

Então parabéns para vocês! É muito muito muito bacana o que vocês estão fazendo. E por isso que eu falo, o que eu puder ajudar, de alguma forma, vai ser um enorme prazer.

Vinicius Dutra