COVID, digitalização e o impacto sobre o impacto

A COVID mudou relacionamentos, processos e hábitos, em todos os níveis. Agora parece que o pior está atrás, mas algumas mudanças vão ser permanentes, como um nível maior de digitalização. Quem não confiava comprar na Internet agora faz e espera em casa uma caixinha de remédios. Organizações descobriram que podem funcionar com os colaboradores trabalhando em casa sem ter que gastar horas para ir e vir do escritório no trânsito…

Também nós na Aventura de Construir, uma ONG que apoia os microempreendedores das periferias, tivemos que fazer uma transição brusca e radical no digital. Antes, sempre privilegiamos o relacionamento cara a cara. O sucesso de uma pequena empresa depende principalmente de atitude e motivação, e para esse o contato pessoal continua fundamental. Mas nos primeiros meses do 2020 a proximidade física não era mais uma opção e a Aventura de Construir passou a realizar suas atividades remotamente.

Vale a pena refletir sobre a experiência vivida para aproveitar o máximo das novas possibilidades sem fechar os olhos nos limites.

Umas das primeiras ações “100% digitais” foi o projeto “Aventure-se”. Normalmente a AdC encontra os microempreendedores através de organizações parceiras já enraizadas no território que se quer alcançar, construindo em cima da confiança já existente. Entre as dificuldades para alcançar potenciais beneficiários tentamos usar mídia out-of-home. Por três meses em 2021, graças a parceria com a Via Quatro e a Via Mobilidade, foram expostos cartazes em 25 estações do metrô de São Paulo, acompanhados por vídeos nos vagões, com QR Codes que levavam a uma plataforma online de ensino.

A campanha teve impacto, demonstrados pelos retornos que receberam os nossos “modelos” – todos empreendedores que já acompanhamos -, mas poucas pessoas se engajaram de fato com o conteúdo. Entendemos rapidamente que a divulgação “broadcast” não era eficaz para relacionar-se com o nosso público.

Em outros projetos anteriores e sucessivos entramos em contato direto ou através de relacionamentos existentes, e usamos o digital para substituir as atividades de formação e suporte. À vez que visitar as pessoas no empreendimento delas e a dar capacitações nos bairros usamos Zoom e outras plataformas. Teve um período de adaptação, e até realizamos uma pesquisa para entender as barreiras no uso da tecnologia do nosso publico alvo.

Entendemos que o nível de conhecimento era suficiente e que em muitos casos as dificuldades eram mais psicológicas ou de hábito que econômicas ou técnicas. Precisou-se superá-las, porém, e por isso foram e ainda são muito importantes a sensibilidade e o acompanhamento individual junto com as aulas de tutoriais.

Um primeiro efeito que observamos foi que a nossa produtividade aumentou muito: sem deslocamentos e esperas, sem ter que preparar os espaços físicos conseguimos acompanhar mais empreendedores para mais tempo. Comparando o nosso último projeto presencial com um na nova modalidade, vimos que uma hora de um colaborador AdC conseguiu gerar cinco horas de relacionamento com os empreendedores, enquanto antes era uma hora e meia. Grande parte desse aumento foi devido ao incremento de presenças nas capacitações: virando mais fácil participar a frequência aumentou.

Um segundo efeito positivo foi a maior facilidade de envolver voluntários. Há tempo percebemos a grande disponibilidade de profissionais e empresas a ajudar os microempreendedores, seja a nível pessoal que como voluntariado corporativo. Sempre entendemos quanto seria valiosa: um profissional não comunica somente noções, mostra também que é possível alcançar objetivos e então transmite motivação. Mas uma das grandes barreiras sempre foi o tempo para eles chegar nas periferias onde nós atuamos.

Até cogitamos de realizar uma plataforma ad-hoc de colaboração para facilitar essa troca de experiência. A pandemia, pelo menos nesse aspecto, simplificou tudo e agora muitas das nossas atividades envolvem profissionais externos. Até microempreendedores que se desenvolveram mais com a nossa ajuda começaram a acompanhar outros: começamos a enxergar a multiplicação dos nossos esforços que sempre foi um nosso objetivo.

Aumento de produtividade, voluntários e multiplicadores foram boas notícias pela escalabilidade do nosso modelo. No futuro vamos continuar aproveitando das novas possibilidades, mas entendemos também que não podemos largar a mão do contato pessoal.

No DNA da Aventura de Construir temos a avaliação do impacto das nossas ações. Não existe projeto na AdC onde não tentamos, entre várias dificuldades, de entender se e quanto mudamos pelo melhor os que acompanhamos. Comparando o impacto dos dois projetos que já mencionamos (inserir link), observamos que a interação puramente digital tem uma eficácia menor.

Os empreendedores acham essas interações mais “frias” ao respeito do encontro presencial e de fato elas não permitem uma visão do contexto. Em uma visita, com um piscar de olho se entendem ordem e organização, por exemplo. Esses detalhes – que não “cabem” no Zoom – dizem muito da atitude do empreendedor e são então importantes para guiar o acompanhamento.

Então, entramos nessa nova fase de reabertura mudados, com muitas lições aprendidas e o desafio de integrar digital e presencial para alcançar resultados reais para o maior publico possível.

Admin Admin