Biodiversidade e o quintal da vovó

No Blog AdC desta semana, trazemos um artigo de Graciema Pinagé sobre a importância da biodiversidade no cultivo. Graciema é analista ambiental do Serviço Florestal Brasileiro, agricultora orgânica e voluntária do nosso projeto “Desenvolvimento das habilidades empreendedoras de microprodutores orgânicos de baixa renda, que gerou o documentário Da Terra Nascem Protagonistas. Confira!

Biodiversidade é um dos temas da moda atualmente. E faz sentido. A ação do homem se tornou um fator de extinção tão importante quanto as catástrofes das eras da terra.  Mas exatamente, o que é biodiversidade?

Esse conceito é ao mesmo tempo mais óbvio e mais abrangente do que parece. Biodiversidade é a variedade existente na natureza viva. Mas abrange também os seres vivos e suas interações entre si, a diversidade entre populações e a diversidade genética dentro de uma espécie.

E dentro das espécies existentes temos as espécies domesticadas também. Elas evoluíram de seu estado selvagem para o domesticado junto com a história do homem. E ao longo de milênios de seleção, foram desenvolvendo uma diversidade genética intra-específica enorme. O exemplo mais visível disso são os cães. A mesma espécie tem uma variedade gigantesca de formas, tamanhos, cores, temperamentos e doenças específicas. Mas as plantas cultivadas também têm essa diversidade, menos visível, é verdade, e é nela que vamos nos ater neste artigo.

Outro conceito que eu abordo de uma forma mais ampla aqui é a política. Política no sentido que estou usando é qualquer relação de seres humanos entre si, e deles com as instituições e das instituições entre si. Aqui eu vou falar da política voltada ao que comemos, das plantas que evoluíram conosco.

As plantas que constituem a dieta dos povos possuem uma variedade gigantesca. Em 1940 havia cerca de 10.000 variedades catalogadas de arroz na Índia. Imagine quantas então haveria em todas as chamadas civilizações do arroz – as culturas asiáticas? Afora a grande diversidade de solos e condições climáticas, gostos, formas, cores, mais ou menos amido na parte de fora do grão, se você depende da palha do arroz para fazer telhados, esteiras, papel e feno para seu gado no inverno, é importante que o pé tenha um porte mais robusto.

O arroz pode ser branco, marrom, vermelho ou preto. Pode ter um teor de amido alto ou baixo, na superfície do grão ou apenas internamente. Pode ter diferentes cheiros e formatos de grão. Pode crescer no seco ou no alagado. Pode florir apenas em temperaturas frias, ou tolerar verões escaldantes. Pode ser alto, acima da cabeça de um homem, ou baixinho. Pode produzir muitas folhas ou poucas folhas. Pode ter a espiga cheia ou mais solta.

Existem tomates verdes, amarelos, roxos, vermelhos e rosa. Podem ter polpa firme, mole, aquosa, fina, espessa, granulosa, lisa. Podem ter poucas sementes, muitas sementes, sementes soltas, sementes aderidas ao fruto. Podem ser grandes, com cada fruto pesando quase um quilo, ou pequeninos. Podem ser ácidos, doces, sem graça, ardidos. Podem ser redondos, ovais, em formato de Pêra, achatados. Podem ser solitários ou vir em cachos. O pé pode ser alto, baixo, tolerante a solos ácidos, resistente ou não a várias doenças e pragas. E essas características podem vir em qualquer combinação.

E o Milho? Tem milho branco, milho amarelo, milho roxo, milho vermelho, milho alaranjado, milho cor de arco íris. Tem milho de grão pontudo, milho de grão redondo, milho de grão quadrado, milho doce, milho de pipoca, milho duro, milho macio, milho da seca, milho das chuva, milho para suco, milho pra fubá… E por assim vai, com a batata, com o trigo, com as maçãs…

Mas nem todas as variedades se prestam para cultivo em larga escala. O arroz de sequeiro e de talos curtos, por exemplo, se tornou o mais cultivado no Brasil. Não necessariamente porque é o mais produtivo, ou o mais nutritivo, mas porque é o mais fácil de ser colhido em colheitadeira. Que produtos são cultivados hoje dependem mais da facilidade de serem industrializados, da vida de prateleira dos mesmos, de serem tolerantes ou não a determinados adubos ou agrotóxicos e do interesse da grande empresa que vende as sementes (caso você não saiba, 6 empresas controlam 80% do mercado mundial de sementes), do que do valor nutritivo deles. É uma decisão econômica e política.

E estamos falando apenas das culturas mais comerciais. Nem entrei no mérito das PANCs – Plantas alimentícias não convencionais.

E onde entra o quintal da vovó? Os quintais são a fortaleza dessa imensa variedade de plantas agrícolas. E de temperos, e das plantas medicinais. São o repositório de uma ininterrupta tradição agrícola, cultural, alimentar e afetiva da humanidade. A riqueza da sociobiodiversidade vem com um conhecimento associado a essas plantas, seus usos, cultivo, histórias e modos de preparo gigantescos.

Essa riqueza cultural, genética e alimentar é muitas vezes desprezada, vista como mato, como um não-saber, como algo ultrapassado no caminho do progresso. Algumas iniciativas como os bancos de sementes comunitários, de preservação de sementes crioulas (sementes da paixão, assim chamadas na Paraíba – coisa mais linda) a Arca do Gosto do movimento Slow Food, o Projeto “Desenvolvimento das habilidades empreendedoras de microprodutores orgânicos de baixa renda”, da Aventura de Construir, apoiando microempreendedores orgânicos e outras são cruciais para a preservação deste legado, fruto do encontro da cultura com a natureza.

Em minha própria família tenho muitas dessas lembranças. Das frutas que você só acha no pé, do quintal da vovó. Do abiu, do sapoti, da jaca mole, da pitanga e da jabuticaba do quintal da minha avó. Da linguiça temperada com folha de figo, pimenta de macaco e alfavacão. Do xarope de elevante, capim limão, flor de mamão macho e raiz de salsa quando eu gripava. De brincar nesse quintal, na aparente desordem das plantas, as flores entre as ervas, entre a comida.

Então fica aqui meu manifesto pelos quintais. Por tudo que eles preservam. E eles podem salvar a humanidade um dia. Exagero? Não. A fome das batatas na Irlanda foi causada por um fungo, míldio, que transformava as batatas em líquido negro. Também foi causada pela baixa diversidade genética, que permitiu com que todas as batatas cultivadas lá fossem susceptíveis a esse fungo. A diversidade genética é a base para a sobrevivência das espécies.  Neste tempo em que vivemos, o milho que suportará as mudanças climáticas pode perfeitamente estar num fundo de quintal qualquer por aí.

Graciema Pinagé – Agricultora Orgânica

Vinicius Dutra