Avaliação de Impacto: as Lições da Pandemia

Sérgio Lazzarini

Professor Titular da Cátedra Chafi Haddad, Insper

Coordenador do Insper Metricis

Sérgio Lazzarini é um grande mentor da Aventura de Construir! Ele nos deu suporte para criarmos nosso próprio Sistema de Avaliação de Impacto, em especial qualitativa.
É uma pessoa com a qual podemos aprender muito e, neste momento, está nos introduzindo neste novo tema em relação à pandemia de Covid-19. Por conta desta nova frente, vale a pena conferir esse artigo escrito por esse importante parceiro da AdC!!!

Os últimos meses não somente exigiram um esforço intenso de atores públicos e privados para lidar com a COVID-19, como também evidenciaram perspectivas distintas – e opostas – sobre como lidar com grandes crises.

No lado negativo, acentuaram-se posições anticientíficas recomendando tratamentos sem comprovação de eficácia, disseminação de informações falsas e pressões empresariais diversas para relaxamento das medidas de controle do vírus, além dos usuais pedidos de resgate setorial com recursos públicos. Tudo isso na tradição de receitas e políticas sem base em evidências e sem âncora em ensinamentos obtidos em experiências passadas.

No lado positivo, apesar das irreparáveis perdas trazida pela pandemia, algumas dessas propostas foram rechaçadas por segmentos da sociedade e passaram a ser testadas novas opções de política com maior foco e maior possibilidade de monitoramento dos seus efeitos.

Por exemplo, emergiram diversas redes de colaboração entre setor público, organizações sem fins lucrativos e comunidades em áreas urbanas vulneráveis. Apesar do choque trazido pelas medidas de isolamento, vários negócios aprenderam a como se adequar a padrões sanitários mais rigorosos e explorar novos canais de acesso a clientes de forma remota. Testaram-se novas políticas de crédito substituindo o tradicional repasse de recursos via bancos públicos por um mecanismo mais alinhado à prática internacional de garantias de crédito: o setor privado empresta com parte do risco de não-pagamento coberto pelo setor público.

Agora, teremos dois desafios. O primeiro é garantir que essas ações sejam adaptadas à própria evolução da pandemia. Idealmente, iniciativas de apoio estatal deveriam ocorrer de forma cirúrgica e focalizada, evitando-se, como em crises anteriores, a perpetuação de subsídios e medidas de apoio para quem não mais precisa.

O segundo é aprender com as várias iniciativas que foram engendradas. Como saber se elas deram certo? Quais delas poderiam ser utilizadas em crises futuras? É justamente aí que surge a importância da avaliação de impacto.

Por exemplo, um recente estudo avaliou o Paycheck Protection Program (PPP) nos Estados Unidos, um programa de garantia de crédito estabelecido em resposta à COVID-19. O estudo comparou o desempenho de empresas elegíveis e não elegíveis ao programa, em função do seu tamanho. As elegíveis compuseram o chamado “grupo de tratamento”, que recebeu a garantia de crédito. As não elegíveis então foram usadas como um “grupo de controle” indicando o que possivelmente teria acontecido com as firmas tratadas caso não tivessem tido acesso ao PPP. O estudo mostrou um impacto positivo no emprego: as empresas do grupo tratado empregaram 3,25% a mais que as empresas no grupo de controle.

Espera-se, agora, que estudos nessa linha e cobrindo diversos tipos de iniciativas sejam feitos no Brasil. Mesmo nos casos onde não se tenha acesso a indivíduos não submetidos a uma dada ações (ou seja, não é possível compor um grupo de controle), é preciso que, ao menos, sejam coletados dados administrativos sobre aqueles que foram afetados e também realizar investigações de cunho mais qualitativo sobre os processos envolvidos e possibilidades de melhoria.

As possibilidades de aprendizado serão imensas. A pandemia irá passar, mas ficarão valiosos ensinamentos sobre o que funcionou, o que precisa ainda melhorar e como nos preparar para reagir, de forma rápida e efetiva, a problemas sociais prementes.

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