AdC Entrevista: Vitones (Parte II)

Curtiu a primeira parte da entrevista com Vitones? Nesta segunda parte você confere um pouco mais da conversa que tivemos com o artivista multimídia, que falou um pouco mais sobre o seu trabalho. Confira o restante a seguir:

Qual é o legado que você traz para você com este trabalho? O que fica com você depois disso?

Acho que fortalece minha vontade de continuar fazendo isso, de trazer essa representatividade de outra forma. E fica comigo uma experiência com muitas lições, porque estava imaginando uma coisa, eu me limitei e não pude construir desse jeito que eu pensei. Vai ficar comigo uma noção melhor de elasticidade, de estar pronto para o que acontecer. Eu estava com um plano, queria fazer de uma maneira e não pensei no que poderia acontecer, mas talvez por estar com falta de ritmo – pois eu pintava com bastante frequência e hoje eu divido meu tempo com outras coisas em minha vida.  Eu não faria isso se não tivesse significado pessoal, pois eu vejo que isso reflete em outros processos que estou vivenciando de ter outras pessoas envolvidas, de cada um ter sua importância nisso. Em resumo, isso tudo confirmou alguns conceitos e pensamentos que me potencializam a querer mais. Estou com sede!

Você expressa através de uma arte algo que você tem dentro. Então qual é a coisa mais preciosa que você quer compartilhar e exprimir através dela?

Unidade na diversidade. Transformar todas as palavras em amor, é isso que eu quero trazer no desenho. A unidade na diversidade, as diferentes coisas que eu faço tem uma unidade quando estão juntas. Ver como a vida é linda e é possível tanta coisa. Por isso que desenho várias coisas além de animais, eu só não quero me limitar dizendo “eu sou isso aqui”.

Qual é o maior aprendizado neste trabalho?

Eu acho que o trabalho me faz bem. Eu valorizo o que eu faço, mas só por amor não dá para trabalhar. Então eu signifiquei o trabalho para trazer o tema da diversão para perto.

Qual é o diferencial que tem na sua arte em relação a outros artistas que fazem um trabalho como o seu?

Eu acho que tem a minha mão, literalmente. Eu enfio a mão na parede e talvez isso seja um lance forte meu, que dá uma característica muito importante. Eu sou apaixonado pela expressão das pessoas e quanto mais expressão tiver, até mesmo naif, melhor. E o que faço é carregado de atitude, das minhas intenções, para que fique vivo. Eu tento estabelecer o máximo de relação com aquilo para que fique com a máxima potência e esse entusiasmo é um diferencial meu.

Quais são suas referências?

Hoje em dia eu não tenho isso, porque depois que eu comecei a estudar eu comecei a buscar o que está dentro de mim. Talvez quem esteja muito presente no meu trabalho é o Van Gogh. Eu gostava dele antes de pintar, porque ele colocava o que ele estava sentindo e isso para mim é importante, a expressão genuína. Tendem a me colocar num patamar superior como se isso fosse um dom, mas não é tão simples, pois eu estudei para isso e você tem que buscar dentro de você mesmo. Depois que eu comecei a estudar, eu me livrei das referências, não tenho mais isso. Eu gosto e acompanho pessoas que pintam e se expressam de uma maneira parecida com a minha, isso vai me direcionando por alguns caminhos. Amo o trabalho de amigos aqui de São Paulo e outros que estão aí pelo mundo que foram minhas referências, mas como eu estou sempre buscando melhorar, chega um momento em que essas referências se esgotam. 

Voltamos ao ponto da pergunta que você perdeu… O que significa esse processo de mergulhar naquilo que você tem dentro de você?

Eu vejo como um processo tipo a fotografia, vou registrando diversos pontos de vista e tento congelar uma cena em movimento, que seja ao vivo e que o telespectador consiga visualizar a próxima ação.

E como você descobre esse processo?

Eu estou sempre lendo sobre tudo, eu pinto animais porque teve um momento que eu li sobre algo que me fez ver a beleza dos animais e por isso desenho eles até hoje.

Para você estudar significa estudar técnicas para fazer o seu trabalho ou se inspirar? Ou as duas coisas?

Tecnicamente eu sinto pouca vontade de fazer algo novo, porque eu tenho um amor platônico pela parede. Há um tempo comecei a estudar tatuagem para sanar uma curiosidade em saber como é usar a ferramenta. Tenho vontade de fazer coisas com textura, eu pintava roupas como se fossem telas. Como eu estudei na Panamericana, os professores ficaram doidos, mas gostaram da proposta. Eu amo paredes e coisas gigantes, porque isso invade as pessoas: você anda e vê uma imagem com diversas interpretações. É diferente de uma palavra, tem gente que não sabem ler, mas a pintura fala por si só.

Antes eu trabalhava com teatro, no palco, era maravilhoso e seria diferente para conhecer o mundo – e eu queria conhecer o mundo -, e a pintura me proporcionou isso. Eu gosto de andar por aí, sempre transitando em vários lugares.

Um espírito livre?

Exatamente isso! Conhecendo as cidades e as pessoas, como se eu fosse um agente de arteterapia. Eu acho que faço muito bem para a sociedade fazendo isso, mas eu sou discriminado por isso! Adoro a adrenalina de intervir nos lugares, mas é muito perigoso. Como você intervém na rua em que o espaço é de outras pessoas? Tem pessoas que gostariam de intervir, mas não têm coragem, então eu faço pelos outros!  

O que você tem como desejo para você, para o futuro dentro de tudo isso que você comentou?

Eu tenho desejo de ser ouvido. Eu não tenho necessidade de ser escutado, mas desejo. Eu vejo dessa maneira porque eu exercito muito e penso “queria estar lá”. Esses pensamentos já me ocorrem, mas aí você escolhe o que vai levar. Eu gostaria de ter mais espaço para a diversidade. As pessoas já conhecem as línguas que estão aí e precisamos ver novas formas de expressão. Nem tudo vai me contemplar, mas tem que ter espaço, porque pode contemplar alguém. E com mais espaço para essa comunicação, as pessoas se entenderão melhor como sociedade. Uma hora a polaridade muda!

Entendemos que tem um aspecto em ser artista que é parecido com ser microempreendedor, no sentido em que muitas vezes escutamos do nosso público que não se reconhece como empreendedor. Como foi essa trajetória para você, como você passou a se reconhecer como artista?!

Eu nem tive tempo para me perceber de outra forma. Quando eu era criança fazia capoeira e, depois disso, quando eu estava no ensino médio, tive contato com dança de salão. Quando me perguntaram sobre como eu ia seguir minha carreira, me indicaram para fazer um teste para uma peça. E quando eu comecei a estudar teatro, também comecei a pintar. Eu costumo falar que sou “artivista”, um novo termo que está nas ruas para designar  pessoas que performam.

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