AdC Entrevista: Kalil Farran (parte II)

Depois da entrevista oficial que realizamos com Kalil Farran, ainda fomos presenteados com mais uma conversa descontraída para aprofundar alguns temas já abordados por ele!

Kalil Farran é Consultor Autônomo em Estudos e Projetos Socioambientais e ex- Diretor Executivo do Instituto Camargo Corrêa, sendo responsável pelo investimento social privado da CCInfra e de seus parceiros.

Confira abaixo os melhores trechos dessa conversa!

O que você achou das perguntas da nossa entrevista? Gostaria de aprofundar um pouco mais sobre alguma das suas respostas?

Eu posso falar um pouco, pois essas questões estão bastante interligadas. Eu acredito muito que esse momento tem uma característica ímpar para as empresas, que começam a perceber que seus negócios estarão comprometidos se a sociedade não estiver saudável. E isso está ficando cada vez mais claro. Me assusta a quantidade de empresas fechando em qualquer lugar que vou hoje, seja um lugar pequeno, médio ou de grande porte. E são muitas empresas saindo do país… Ou seja, a perspetiva não é tão boa. As empresas precisam ter neste momento um foco mais amplo, com uma visão um pouco mais holística, que não descole de seus negócios a saúde da sociedade. Eu também acredito que essa situação de vulnerabilidade está numa escalada, pois antes a gente tinha muito claro como identificar o vulnerável através de indicadores e dados oficiais, mas hoje essa escada se ampliou. Você percebe profissionais que estão deixando ou que perderam suas atividades. É a mesma coisa que aconteceu nos anos 1990, quando do dia para a noite a empresa que eu trabalhava demitiu 3000 funcionários. A gente via a inteligência saindo pela porta da empresa. E o que aconteceu? Grande parte desses funcionários acabaram abrindo pequenos negócios… Naquela época se falava muito do “engenheiro que virou suco”, hoje a gente tem clareza que ele virou Uber. Tem uma perda de capacidade de consumo da população e também do governo em investir em grandes projetos. 

Você enxerga alguma responsabilidade, um papel do Terceiro Setor em desenvolver algo a respeito disso? Não só o tema da inteligência saindo pela porta, mas também empresas que não podem mais substituir se não levam em conta todos os fatores do ecossistema. 

Sim, o Terceiro Setor é um grande articulador institucional que consegue conversar com todas as partes envolvidas. A gente consegue fazer uma intermediação muito grande entre as empresas, as comunidades mais vulneráveis e as pessoas que estão saindo do mercado. Por isso eu acho que temos um papel importante como articulador institucional.

E como você acha que o Terceiro Setor pode desenvolver esse papel? Ter autoridade, em termos de conhecimento e articulação? 

Eu acho que muitas instituições do Terceiro Setor já têm isso e se propõem a isso. Vejam uma coisa: sempre que o Terceiro Setor senta à mesa é uma pauta positiva. A gente tem essa vantagem de ser um ente positivo e se a gente consegue se antecipar e ser mais propositivo enquanto isso, eu acho que é uma forma muito saudável de encarar essa situação. Se eu consigo fazer uma interlocução entre o empreendedor e a comunidade que cerca o empreendimento, ou entre o empreendedor e essa mão de obra inteligente que está sendo disponibilizada no mercado, que também vai virar microempreendedor, essa visão de “periferia” vai aumentar. 

(…) Agora quero falar um pouquinho sobre Agenda 2030. O que eu vi nas empresas foi um esforço muito grande em pegar suas atividades e tentar encaixar os ODS, montando um panorama que é um pouco para inglês ver, mas que a sociedade e as empresas não conseguiram entender. Eu sempre acho que quando estamos falando de ODS, estamos falando para nós mesmos. É conversa da gente com a gente mesmo. Ninguém sabe o que está acontecendo e o atual governo deixa isso muito claro, é um desprestígio total em relação a questão social e ambiental. Eu vejo relatórios estruturados, mas não necessariamente com conteúdos de qualidade, dizendo: “eu atendo 5 de cada um dos objetivos”. Eu acredito que precisa ser algo mais participativo. 

Mas nós, Terceiro Setor, o que podemos fazer neste sentido? A AdC nasce disso: o que muda a realidade não é um princípio universal, mas uma história particular.

Perfeito, concordo com você! O que a AdC faz que me agrada muito? Ela joga luz sobre determinadas questões que não estão no imaginário ou na mente das pessoas. O que eu coloco ser uma grande surpresa? Foi perceber que existe uma realidade significativa num percentual que eu acredito ser alto, mas que a gente não está considerando. As comunidades vulneráveis dão conta de suas necessidades independentemente de políticas governamentais. Existe ali muita criatividade e trabalho que a gente precisa jogar luz! O papel do Terceiro Setor é esse: jogar luz! 

Vamos tentar aprofundar o conceito de rede na sua experiência?

Sim, mas das redes de pessoas para formar conhecimento. O que se destaca pra mim é a questão de uma rede operacional. A gente constrói uma rede em torno de um objetivo, que deve estar claro para todos e ser construído em conjunto para agregar mais inteligência àquela causa. Para isso precisamos de empatia compassiva. Quando eu consigo perceber qual é a necessidade do outro e colocar a minha inteligência e a minha organização à disposição daquele necessidade, porque às vezes a gente não tem humildade. A gente acaba levando uma visão nossa, dos nossos valores e o que a gente acha bom para o outro. A gente precisa ter humildade para perceber e se permitir que o outro construa soluções, padrões e comportamentos dentro da vulnerabilidade. Então vamos tentar entender o que ele construiu e a partir disso agregar inteligência, inovação e fomentar recursos. Talvez incentivar microempreendedores com tecnologias de baixo custo dentro de práticas que ele já desenvolve. Isso é uma coisa que me fascinou nos últimos anos, ter a humildade de admitir que eu não sei e preciso aprender muita coisa com eles. Mas eu tenho uma vantagem, eu consigo ter o papel articulador de pegar algumas startups super inteligentes e desenvolver soluções. Este é um papel do Terceiro Setor: buscar inteligência na acadêmia, recursos nas grandes empresas e conseguir ler a efetiva e real necessidade dessas comunidades. (…) Assumir que a gente não sabe mesmo. A gente precisa ter uma capacidade de fazer uma leitura integrada das coisas. Não é à toa que os dados sociais tem validade de 5 anos, porque eles são muito dinâmicos – diferentes das informações do meio natural. Mas a gente precisa ter a disponibilidade de mudar as coisas, eu acho que a pandemia vai revolucionar tudo em termos de dados secundários. 

A gente precisa ter um pouco mais de clareza sobre a nossa vulnerabilidade e tentar entender com mais humildade esse contexto no qual vivemos. Eu acho o trabalho de vocês [da Aventura de Construir] fantástico, ele está muito na linha das coisas que eu acredito e acho que não tem outra solução, o modelo é esse. 

Ainda temos uma pergunta. Nos impressionou muito quando você falou que o legado não é nem geração de renda nem de emprego, mas  desenvolver a capacidade empreendedora de uma pessoa, de uma comunidade.  

Todo o Terceiro Setor é assim: qual o propósito deste projeto? Criar alternativas de trabalho e renda para as comunidades que não têm. Aí vem essa pandemia e mostra que trabalho e renda não é legado coisa nenhuma, pois todo mundo perdeu trabalho e renda. Então, efetivamente, o que é um legado? E também tem o outro lado da medalha, você percebe que essas comunidades mais vulneráveis não viveram o “novo normal”, isso foi só para nós, ele não existe para as comunidades periféricas, porque esse já era o cotidiano delas: um cotidiano de restrições. Uma série de questões relacionadas à restrições, tanto que agora a classe média está vivendo a mesma vida dessas pessoas mais vulneráveis, que já resolveram isso de outras formas. Então, legado é fomentar a capacidade empreendedora, ajudar essas comunidades a enxergar seus potenciais como articuladores. Legado é o que a Aventura de Construir trabalha. 

Tem uma frase de Antoine de Saint-Exupéry, escritor de “O pequeno príncipe” que diz: “Se você quer construir um navio, não chame as pessoas para juntar madeira ou atribua-lhes tarefas e trabalho, mas sim ensine-os a desejar a infinita imensidão do oceano.” Parece a mesma visão! Na nossa experiência, quando trabalhamos com os indicadores – medição de renda e geração de trabalho, entre outros – se torna evidente quanto é mais difícil gerar essa cultura empreendedora, para que entre nas veias das pessoas.

Eu concordo totalmente com você. Isso é uma percepção que eu tenho. (…) E esse trabalho é fascinante, pois é também sempre de um aprendizado contínuo. 

Sobre o tema das redes, nossa experiência é parecida com o que você descreveu: uma causa clara que agrega, gerando emoção e compaixão. Mas como todos os elementos das redes podem ter consciência do escopo pelo qual estão trabalhando? O que pode ajudar a que se torne algo que funciona de forma sistemática e organizada?

Essa experiência eu não tenho. Quando eu saí do Instituto [Camargo Corrêa], a gente queria que este evento que aconteceu durante a pandemia fosse o suporte para a gente poder ter um programa de voluntariado interno na empresa. Uma das questões que a gente sempre colocou foi que o voluntário não pode sair do mundo dele para pintar paredes, não é isso. Para gerar empatia o voluntário deve levar a inteligência que ele tem. Quando a gente fez o programa de apoio para combater o Covid-19, o que os advogados iam fazer? Buscar alimentos em casa ou roupa para doar? Não, eles começaram a responder questões que o próprio governo não respondia. Uma delas é: eu tenho guarda compartilhada, como eu faço agora sem renda para pagar pensão alimentícia? Eles começaram a contribuir e a enxergar a dor do outro, mas dentro das competências que eles têm. Não se forçou com que eles fizessem uma ação que fosse estranha ao cotidiano deles e isso foi um sucesso! Então, primeiro: ter uma identificação forte que não saia da nossa área de conhecimento. A gente tem que contribuir com a nossa inteligência e conhecimento!

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