AdC entrevista Instituto Camargo Corrêa e ViaQuatro / ViaMobilidade sobre Projeto Aventure-se

Desde abril, o projeto Aventure-se promove o empreendedorismo da periferia nas estações lilás e amarela do metrô de São Paulo. A ação consiste em cartazes espalhados por 25 estações do metrô, além de peças em vídeo divulgadas dentro dos vagões, com QR Codes e links que levam a uma plataforma online de ensino, com cursos voltados aos empreendedores. Tudo isso fruto de uma parceria da Aventura de Construir com o Instituto Camargo Corrêa, a ViaQuatro e a ViaMobilidade.

Há algumas semanas, conversamos com Marcelo Lucato e Percival Caropreso sobre a criação visual da campanha. Hoje conversamos sobre as parcerias que geraram o projeto com Bárbara Bueno, Diretora Executiva do Instituto Camargo Corrêa, e Diana Siqueira, Coordenadora de Sustentabilidade da ViaQuatro e ViaMobilidade.

Confira a entrevista!

Diana, como surgiu a relação da ViaQuatro e ViaMobilidade com a Aventura de Construir? E como se deu início a esse projeto?

Diana Siqueira – Na área de sustentabilidade da ViaQuatro, nós temos o propósito de levar à população ações e campanhas voltadas a temas de relevância social. A parceria com a Aventura de Construir já vem de antes dessa campanha que realizamos agora. Nós fizemos uma exposição muito legal com a AdC sobre empreendedores que conseguiram vencer e construir empreendimentos de sucesso na periferia.

Então, como uma forma de dar continuidade a essa parceria tão profícua naquele momento, a gente buscou fazer esse novo projeto, divulgando outras atividades da Aventura de Construir. Promovendo assim essa pauta do desenvolvimento do empreendedorismo e da formação social de empreendedores com cursos gratuitos voltados ao seu aperfeiçoamento.

Bárbara, como começou a relação do Instituto Camargo Corrêa com a AdC? E como se desenvolveu esse projeto?

Bárbara Bueno – O Instituto está completando seus 21 anos ao final deste ano. Ele foi concebido como sendo o braço social do grupo Camargo Corrêa, que detém vários segmentos, sendo o mais conhecido o da construção civil. O ICC foi concebido para ser o braço social do investimento social privado do grupo.

Em um momento, observou-se muito acertadamente que a área da construção civil pesada, ou seja, as grandes obras como hidrelétricas, rodovias e aeroportos, traziam não só um lucro significativo para o grupo, mas também um impacto maior na comunidade ao redor dessas obras. Sendo obras muito grandes, geram impactos ambientais e sociais.

Por exemplo, quando a gente chegava em um local como Tucuruí, no Pará, para construir a segunda maior hidrelétrica do país. Imagine 20 mil homens e algo em torno de 50 mil equipamentos chegando numa cidade com menos de 200 mil habitantes. Eu não posso chegar nessa comunidade, usufruir desse rio maravilhoso, levar energia para o país inteiro e não contribuir socialmente para essa comunidade.

Foi esse entendimento, atrelado ao que hoje se fala sobre lucro com propósito, que levou o grupo a criar o Instituto Camargo Corrêa, há 21 anos. E, assim, ele se destinou a focar nas comunidades vulneráveis nas quais estão as nossas obras de construção civil.

Esse é o link que a gente faz com a Aventura de Construir e as linhas lilás e amarela. Primeiro porque a gente participou destas obras do metrô e segundo porque o projeto tem muito a ver com o propósito ao qual o instituto se destina, que não é a filantropia. A gente faz campanhas de doação, mas o nosso foco não é esse.

A gente entende que a doação atende apenas uma necessidade pontual e momentânea. Porém, quando você mexe com empreendedorismo, com educação, com formação intelectual, com propósito intelectual, cultural e educacional, você está dando o mote para perpetuar a inteligência e o empreendedorismo. E a partir daí vem o trabalho, a sustentabilidade financeira e econômica.

Os grandes projetos sociais no quais trabalhamos são os que têm o fundo no empreendedorismo. É aquele jargão sobre ensinar a pescar. E tem tudo a ver com o propósito da Aventura de Construir, ao promover acesso à educação e ao conhecimento para quem até então não tinha. Com uma cultura maior e com uma educação maior, surge a possibilidade para aquela pessoa de aumentar ou de criar um empreendedorismo que traga benefícios para todos nós.

Qual é a importância de apoiar projetos sociais hoje? O que motiva as instituições a apoiar esse tipo de projeto?

Diana – Nós atuamos na ViaQuatro/ViaMobilidade sempre voltados a essa questão da mobilidade urbana e da mobilidade humana. A gente acredita que, além de transportar pessoas, a gente também tem o propósito e a responsabilidade de levar à população discursos  inclusivos, que tragam a mensagem do respeito social, do desenvolvimento social e da construção de uma sociedade mais harmônica e desenvolvida.

Então, o desenvolvimento e a realização dessas campanhas e projetos sociais tem sempre o propósito de aproveitar o espaço público e a visibilidade que a gente tem, enquanto espaço de circulação de milhares de pessoas, para levar à sociedade a discussão sobre pautas sociais relevantes. Sempre com o propósito de promover o desenvolvimento social, a inclusão social e o empreendedorismo, principalmente nesse momento da pandemia.

Nesse sentido, o empreendedorismo da periferia é uma questão muito importante. A gente tem a possibilidade de levar geração de renda e gerar empoderamento social à periferia por meio desses projetos. É muito importante que a gente capacite esses empreendedores para que eles tenham poder para barganhar no mercado, para legitimar e desenvolver os seus projetos sociais.

Quando nós desenvolvemos os cartazes e todo o material de divulgação, nós pensamos nesse sentido de sempre incentivar o empreendedorismo social da periferia e contribuir para a formação social, econômica e gerencial desses empreendedores, por meio desses cursos em parceria com a Aventura de Construir.

Bárbara – Se o Brasil fosse perfeito, nós não precisaríamos de instituições, fundações e ONGs, porque o lado público faria a sua parte e o privado também. Mas a gente sabe que na nossa realidade, até pelo tamanho do nosso território, não conseguimos estender o atendimento a todos, de uma forma uniforme. Seja ele privado ou público.

Sobre o privado, volto a falar sobre o tal do lucro do propósito. Para mim, não faz muito sentido que o empreendedorismo lucre através de uma comunidade e de um território sem compartilhar com determinadas responsabilidades. E eu digo isso não apenas para as empresas mas também para o pessoal. Acredito muito que todas as pessoas deveriam contribuir um pouquinho, porque se a gente se utiliza do meio ambiente e da comunidade onde a gente pertence, me parece natural que a gente contribua com esse lugar.

Isso parte não só de um bom senso, mas de uma responsabilidade social. A companhia que usufrui daquela localidade onde o metrô está instaurado e se utiliza daquela comunidade, das pessoas que utilizam a linha, deve devolver àquela comunidade uma situação que favoreça as necessidades existentes ali. O propósito do instituto não é fazer aquilo que a gente acha bonito, o que a gente quer. Mas sim olhar para essa comunidade e perguntar o que ela precisa, quais são os piores problemas dali, para que a gente possa atuar e ajudar.

Além disso, devemos sempre focar numa situação de sustentabilidade e perenidade. É fácil doar um agasalho, mas ano que vem a criança que o utilizou cresceu e não usa mais. Porém, e se a gente ensinar, levar alguma condição para melhorar aquele empreendedor caseiro, fazer com que ele aumente a sua receita e garanta sustento ao longo da vida para seus filhos? Isso favorece não só aquele espaço físico mas também o recurso humano que lá está para fazer esse negócio acontecer. São essas pessoas que usufruem do metrô e que também trazem lucratividade para o nosso negócio.

Como vocês veem que este projeto ajuda a superar as maiores dificuldades enfrentadas pelos micro e pequenos empreendedores de periferia num momento tão crítico como o atual?

Bárbara – Nesse momento em que estamos vivendo, antes de mais nada, a gente precisa apoiar esses microempreendedores, pessoas que estão literalmente sustentando o país e sustentando as suas famílias. A gente tem uma pesquisa que mostra que 70% das pessoas de baixa renda estão numa realidade de microempreendedorismo. E o que lhes faltam, muitas vezes, é essa formação, um incentivo.

A gente acredita que a nossa responsabilidade social está literalmente ligada a essa realidade de formação, de educação e de mantenimento desses profissionais que alavancam a economia do país.

Diana – Quando a gente conversou com a Aventura de Construir, levando o propósito de divulgar a temática do empreendedorismo social para as estações, a gente sempre trouxe para a discussão a importância de falar com esse público incentivando eles a desenvolver esse potencial de empreendimento, tornando o processo cada vez mais técnico e gerencial.

Entendemos que montar e gerir um negócio, tornando isso perene e sustentável a longo prazo, não é um processo fácil. Abrir e gerir uma empresa é um processo complicado e árduo, e quanto mais apoio eles tiverem, mais conhecimento técnico, melhor. Isso possibilita a criação de maneiras novas de gestão, formas inovadoras de atingir os seus clientes e fazer negócios.

O propósito do projeto nas estações foi incentivar o público, os clientes, a irem em busca desses empreendedores, mas também fazer com que esses empreendedores aprendessem a maneira de gerir projetos de tal forma que se tornem sustentáveis a longo prazo. Temos um grande problema no Brasil, hoje, que é a quantidade de empresas que abrem e fecham em curto e médio prazo, porque as pessoas não têm condição e conhecimento técnico para manter esses empreendimentos.

Que aprendizados e benefícios as instituições obtiveram a partir do projeto Aventure-se?

Bárbara – Sempre tem coisa nova para aprender e disseminar, e acho que nesse ponto o grande mote foi o estímulo ao empreendedorismo local. Apoiar as instituições para que a gente consiga replicar e fazer com que cada vez mais empreendedores e mais pessoas estejam dentro desse propósito educacional, de formação e ensino, para alavancar o empreendedorismo, faz muita diferença.

Nesse momento a gente tem observado que são os microempreendedores que estão alavancando a economia local. Fizemos uma pesquisa, há pouco tempo, e observamos que em determinadas comunidades vulneráveis, especialmente as favelas, cerca de 76% de mulheres estão sendo o arrimo de família. Elas são empreendedoras, microempreendedoras ou empreendedoras informais.

Esse incentivo e esse estímulo ao empreendedorismo tem um objetivo de perenidade, de sustentabilidade e de transformação, que é o propósito especial do ICC: inspirar para transformar. Inspirar essa mulher e esse homem para transformar a realidade da comunidade onde ele vive. Desta forma, o projeto da Aventura de Construir foi realmente significativo e esperamos ter oportunidades de trabalhar juntos em outras outras questões nesse sentido.

Diana – A gente vem aprendendo com a Aventura de Construir desde o nosso primeiro projeto. Nossa primeira conversa com a AdC já foi muito bacana, porque foi aquele momento de vislumbrar o potencial dos empreendedores locais. Foi quando vimos aquelas histórias de sucesso, de pessoas que tinham uma ideia, foram atrás para implementá-la e fazer com que ganhasse forma ao longo do tempo.

Essa nova parceria foi uma proposta de expandir esse projeto que a Aventura de Construir tem, de desenvolver o empreendedorismo local, o empreendedorismo social e incentivar outros empreendedores a galgarem o mesmo caminho e o mesmo espaço. Foi um caminho muito bacana que a gente percorreu. No primeiro momento, descobrindo o potencial dos empreendedores locais, nas histórias incríveis que existem na periferia sobre empreendimentos de sucesso. E, nesse segundo projeto, foi bacana o discurso de que existe um potencial e uma competência técnica dentro da periferia, que só precisa de um empurrão para ser desenvolvido e bem sucedido.

Dessa forma, vamos construir isso juntos e levar para a sociedade, fazendo com que a ela descubra e contribua com o desenvolvimento deste potencial. Levar para as estações esse discurso de que existem empreendimentos de sucesso na periferia que precisam ser incentivados, que toda sociedade pode contribuir com o propósito da geração de renda e do desenvolvimento social, já é uma receita do sucesso.

A periferia tem grandes ideias e potenciais. Compete a nós, que temos alcance a muitas pessoas, legitimar este discurso e contribuir para o desenvolvimento social levando informações e conhecimento para a população.

Para finalizar, o que vocês imaginam para o futuro? Que projetos podem surgir em parceria com a Aventura de Construir?

Bárbara – Pegando esse gancho que a gente não pode ignorar, a questão da pandemia, é muito inusitada a mudança no perfil da comunidade na qual a gente está inserido. Eu tenho falado muito para os líderes com quem tenho conversado sobre isso. Ano passado a gente via uma necessidade premente relacionada a doações para pessoas mais velhas, como álcool gel, máscara etc. Esse ano, a coisa mudou muito. Por isso, acho que a Aventura de Construir caiu no nosso colo como uma luz.

Não só os mais velhos têm sido prejudicados com a pandemia. Hoje, estamos em uma realidade que a população um pouco mais nova está sofrendo com isso. Neste momento estão sendo prejudicados os trabalhadores que não podem trabalhar, porque ficam doentes ou têm sequelas, e também as mães de famílias, porque estão cuidando do marido ou do pai doente, ou ainda, cuidando do filho que não tem onde deixar.

Neste sentido, temos percebido um pedido muito forte por acolhimento de crianças e das mulheres. A gente acompanhou essa pesquisa que mostrou que mais de 70% das famílias das comunidades vulneráveis em que estamos inseridos tem sua renda vinda da mulher. Mas com a pandemia muitas mulheres estão deixando de trabalhar, deixando os seus negócios que tinham começado ou idealizado.

Então, onde o Instituto Camargo Corrêa tem atuado muito? Temos atuado, por exemplo, em atenção às creches, porque se a criança tem um lugar para ir, a mãe tem um lugar para trabalhar. Se a mãe tem esse acolhimento que a permite usar algumas horas do seu dia para gerar a renda de sua família, já é uma grande ajuda.

Eu entendo que a gente pode trabalhar junto muito mais, e em muitos outros segmentos que sejam fundamentais para passar por esse momento com um pouco menos de angústia e sofrimento para as comunidades vulneráveis.

Diana – Quando fizemos a reunião sobre a divulgação dos cursos, eu comentei que eu gostaria de trazer a segunda onda de projetos sociais de sucesso, queria demonstrar o quanto essa formação e esse incentivo ao empreendimento social da periferia trouxe bons frutos. Então, a próxima parceria que eu vislumbro é justamente nesse sentido: já mostramos o potencial da periferia, buscamos ampliá-lo por meio dos cursos, agora vamos divulgar o quanto isso trouxe de resultado para a sociedade. E, assim, fazer com que esse ciclo do bem continue a crescer.

O nosso propósito é continuar demonstrando que existe um caminho a ser trilhado muito benéfico a sociedade, do incentivo ao empreendimento social. Também queremos continuar demonstrando o potencial da periferia em gerar empreendimentos de sucesso. Então, o desafio que eu trago para vocês é mostrar os resultados de tudo isso, o resultado dessa formação sendo aplicado na prática. Vamos conhecer esses empreendedores que fizeram os cursos, ver como isso resultou em desenvolvimento social para eles e como implementaram isso na prática. E vamos assim consolidar cada vez mais essa roda do bem.

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