AdC entrevista Edson Barbero e Rodrigo Fadelli da FECAP

A Aventura de Construir desenvolveu, junto com a Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado, a FECAP, um projeto para envolver os alunos da instituição em empreendedorismo social. Com apoio do professor Edson Barbero e de Rodrigo Fadelli, foi criada uma atividade complementar voluntária para os alunos do curso de administração, para que os estudantes do primeiro semestre produzissem textos relacionados ao trabalho da AdC. O objetivo foi aproximar esses alunos de experiências da vida real, em situações de vulnerabilidade. Os textos foram revisados junto com os professores e serão publicados no nosso blog de forma periódica.

Para contar um pouco mais sobre esse projeto, Silvia Caironi, Coordenadora-geral da AdC, entrevistou Edson e Rodrigo sobre as expectativas e impressões que tiveram durante esta experiência. Confira!

Silvia Caironi – O professor Edson da FECAP e seu assistente, Rodrigo desenvolveram um projeto bem interessante, com o objetivo de favorecer uma geração de interesse, empatia e conhecimento nos alunos sobre temas ligados ao desenvolvimento econômico e a microempreendedores de baixa renda. Por isso, esse projeto foi desenvolvido em conjunto com a Aventura de Construir. Primeiro, gostaria que eles se apresentassem.

Edson Barbero – Eu sou professor da disciplina de Fundamentos da Administração da FECAP. Por meio desta posição que conseguimos desenvolver juntos – a Aventura de Construir e a FECAP – um projeto tão interessante, que acho que deve dar frutos tanto atualmente quanto no futuro.

Rodrigo Fadelli – Além de outras atividades, eu estou auxiliando o professor Barbero na disciplina da FECAP. Em meio às atividades da disciplina, ele me fez o convite para tocar esse projeto junto com os alunos e a AdC. Isso tem sido muito interessante para mim, profissionalmente, e tenho visto que é muito interessante também para os alunos. É com prazer que a gente desenvolveu esse projeto, que estamos finalizando.

Silvia – Professor Edson, como nasce o projeto e quais são os objetivos? 

Edson – Na FECAP sempre temos o objetivo de transformar as disciplinas em disciplinas com conteúdos que tenham um significado. Isto é, que a gente consiga não apenas transmitir conteúdos aos estudantes, mas também que eles percebam a razão, os impactos e a verdadeira mobilização daquele conteúdo. 

Para isso, é necessário que a universidade faça aproximações com a sociedade, e ainda mais particularmente com a sociedade brasileira, para mobilizar recursos diante dos desafios que a gente vive no mundo. Neste sentido, a Aventura de Construir é para nós uma parceria particularmente interessante e particularmente rica em termos de trocas. E pela qual nós temos uma grande admiração.

O objetivo concreto do projeto é que, em uma disciplina bastante introdutória de Administração, com alunos do 1º semestre letivo, se proporcione a esses estudantes a possibilidade de dialogar, desde o início do seu curso, com a sociedade. No caso específico, compreender o universo do empreendedorismo social, compreender o universo dos problemas que a sociedade vive e entender como a gestão de empresas pode auxiliar nesse sentido.

É um projeto em que os alunos participaram de maneira autônoma e voluntária, isso também é importante. A gente não trabalhou, neste caso em particular, com uma relação de avaliações da disciplina, ou seja, com as famosas notas. Procuramos incentivar os estudantes a autonomamente buscar esse espaço e acho importante que a universidade oferte esses incentivos, não necessariamente os obrigando.

Também, nós consideramos que haja aí uma ponte que as organizações de terceiro setor vejam como positiva. Os estudantes podem trazer conteúdos interessantes das universidades, podem fazer trabalhos voluntários e, digamos, oxigenar as visões interiores das organizações. Esperamos que este projeto tenha frutos para a sociedade brasileira, mais particularmente a paulistana, para a AdC, para nós da FECAP e para eles, estudantes, pessoalmente.

Silvia – Rodrigo, o que comentaria em relação ao desenvolvimento do projeto? Como você viu estas expectativas citadas pelo professor Edson acontecerem durante o desenvolvimento do projeto?

Rodrigo – O que é interessante na condução do projeto, que eu acabei acompanhando de forma mais próxima com o auxílio do professor, foi o interesse dos alunos de participar de forma voluntária do projeto. É interessante também perceber, já de primeira, o entusiasmo deles em entender e conhecer a Aventura de Construir. Tanto é que teve um caso de uma aluna que procurou a Silvia, porque ela quer aprofundar o que ela trabalha e possíveis projetos com a AdC. 

Então é como o professor falou, a questão de relacionar esses alunos com a sociedade e com o que acontece ao redor deles. Não devem ficar apenas dentro da universidade, mas se relacionar com o que tem no entorno. Acho que esse é um papel que o projeto começa a fazer, e de forma interessante já que eles estão iniciando no curso.

E acredito que, depois desse deslumbre inicial, também é interessante o quanto eles tiverem a oportunidade de trabalhar a questão da escrita, de estudar os temas. Eles foram em diversas temáticas, buscaram o que era do interesse deles, olharam os conteúdos que já aprenderam com o professor Barbero e fizeram uma conexão com o mundo real. 

Houve também a questão de eles trabalharem com organização, com planejamento. Por mais curto que seja o prazo, é um projeto com etapas, com datas.

E, finalmente, eles vão ter uma oportunidade muito interessante de, ainda tão novos, ter conteúdos de autoria própria publicados, impulsionados pela AdC. Isso forma uma espécie de portfólio deles no mundo digital, o que é muito importante pois cada vez mais a nossa marca pessoal é algo que nos vende. Então está sendo muito rico para os alunos e para mim também, nessa condução.

Silvia – Para mim, foi interessante ver que vocês aproveitaram o projeto também para fortalecer estes aspectos, como a escrita em português, ou para mostrar o valor de uma comunicação através das redes sociais. O que vocês enxergaram como sendo o maior aprendizado para os alunos?

 Edson – A educação brasileira muito frequentemente se baseia, de modo equivocado, numa linha demasiadamente diretiva, demasiadamente baseada no esquema do conjunto de conceitos, teorias, com o professor cobrando, com o estudo para a prova. É claro que esse ensino clássico tem o seu papel, mas nós sabemos que a gente aprende muito frequentemente por meio de mecanismos menos formalizados, mais autônomos. 

Essa última palavra para mim é muito central. O aprendizado deve ter um espaço de autonomia em relação ao que eu desejo ver, minhas preferências, aquilo que eu estou fazendo não porque existe um requerimento formal e alguma obrigação, mas porque eu sinto uma motivação intrínseca sobre aquele ponto. Para mim, é uma grande avenida para desenvolvimento humano. A gente precisa na educação compreender a diferença dos aspectos da escolarização mais formalizada e este espaço que os humanos precisam para se desenvolver

Eu acho que a aproximação de escolas, notadamente escolas de negócios como é o caso da FECAP, com organizações do terceiro setor como a AdC é um grande espaço para isso. O Brasil é um país que apresenta problemas sociais extremamente complexos, que todos nós vemos. E os estudantes serem estimulados e terem a autonomia de tentar se aproximar desses problemas, apresentando resultados, é um espaço de vivências extremamente importante. 

No mercado de trabalho, falando de uma parte mais utilitária, isso é muito valorizado. Se eu vou contratar uma pessoa, não contrato apenas porque ela estudou em uma boa escola e teve boas notas. Isso tem a sua importância, mas considero sobretudo o que ela fez, o legado que ela deixou, a diferença que ela provocou no mundo a sua volta, a relevância dos impactos que ela causa em seu entorno.

Nós precisamos criar espaços para que os alunos possam fazer isso, de forma orientada. Nesse sentido, foi um trabalho magnífico que o Rodrigo fez, porque autonomia não é a mesma coisa que independência pouco orientada, acredito que autonomia precisa ter alguém mais sênior para que possa haver uma troca, uma orientação.

Então eu acho que esse foi o principal ponto: como eu posso aprender não somente repetindo os padrões, mas tendo a vivência autônoma de gerar ideias diferentes, perceber os meus erros, perceber o outro e gerar essa empatia. 

Silvia – Nós vivemos em uma sociedade líquida, uma sociedade com um processo de transformação muito rápido, e o Covid até acelerou tudo isso. Então, o que significa formar esses estudantes em um ambiente acadêmico, normalmente mais estruturado e formal, levando em conta estas mudanças dessa sociedade cada vez mais rápida nas transformações? Este projeto pode ser uma resposta a isso?

Rodrigo – A FECAP já é uma instituição que busca não ter tanta rigidez como o mundo acadêmico às vezes tem. Eu sou um ex-aluno que agora está voltando a se relacionar com a Instituição e quando eu vi, recentemente, o quanto o curso de Administração se alterou, eu fiquei muito feliz. Isso porque percebi que a FECAP realmente caminha para ser moderna, uma instituição que está muito atrelada ao que vem acontecendo no mundo corporativo, que é o que eu vivo no dia a dia.

Então, acho que os alunos acabam não enfrentando tanto essa rigidez, mas é muito importante, como nós já falamos, a relação com o mundo externo. E o projeto é um desses casos. Ele possibilitou aos alunos essa relação com o empreendedorismo social, que a AdC faz e, a partir da AdC, se relacionar com os problemas que acontecem na sociedade, que são enfrentados pelo mundo.

Eu vi que durante o projeto os estudantes acabaram desenvolvendo e trabalhando questões com criatividade, que é uma característica cada vez mais cobrada no mundo corporativo. Vi eles trabalhando com negociação, durante a discussão das temáticas e em relação às alterações nos textos. Eu gostei muito da forma como eles apontavam a opinião deles dentro dos textos, eles não encaravam o meu direcionamento como imposições, mas como sugestões. Alguns estão trabalhando em grupo, então a gente vê algumas questões de liderança, com negociação entre eles. Tiveram que dialogar as disciplinas com problemas reais, o que desenvolve o pensamento crítico. Enfim, vi uma série de questões que os alunos desenvolveram ao decorrer do projeto.

Silvia – Você comentou sobre criatividade e negociação. De acordo com um trabalho realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, foram identificadas 10 soft skills consideradas mais importantes para encarar esse mundo em contínua transformação. Vocês acham que houve também o desenvolvimento de outras habilidades durante o projeto, como flexibilidade, iniciativa, resiliência, capacidade de estar aberto a novas oportunidades e competências informáticas de base?

Edson – Faço uma conexão com a pergunta anterior. Você coloca muito bem o fato de que a sociedade líquida, conforme descrita pelo Zygmunt Bauman, realmente requer pessoas de natureza adaptativa e flexível. Essas 10 soft skills não são as únicas necessárias, e também não representam uma redução da importância das questões teóricas e técnicas. É uma adição e não um porém. Isto é, agora além de ser necessário conhecimentos técnicos, são importantes também as soft skills.

E como a gente desenvolve essas coisas? O Rodrigo coloca muito bem que a FECAP há muitos anos vem se transformando para ser essa escola conectada com o mundo real. Para isso, eu vou ter que discutir com as pessoas, criar novas soluções, ser flexível com realidades imprevistas. Apesar de ser um projeto localizado, discutindo textos, está ali encapsulado a negociação do tema, a autonomia por aprender a aprender, também denominado Life Long Learning. Então, tenho muita certeza que esse projeto veio de encontro dessas soft skills

Devo destacar talvez a característica mais importante de todas: a ética, a moralidade. Muitas vezes, na educação, se isolou esse tema. Ficamos aqui dentro das escolas e esquecemos de todos os problemas do mundo. Este projeto fez, no mínimo, que os alunos olhassem a uma certa realidade, que é muito clara no Brasil. São pessoas de baixa renda, com dificuldades sociais, com grandes dramas que vivem na nossa cidade. E não é nada longe daqui, me refiro à cidade de São Paulo. 

Isso tudo para que eles possam desenvolver esse olhar sensível, compromissado com os problemas do Brasil. Acho que este é só um pequeno passo, mas vamos seguir adiante.

Silvia – Rodrigo, você que acompanhou de perto a experiência desses alunos, o que mais chamou a atenção na forma na qual os alunos vivenciaram esta experiência?

Rodrigo – Venho comentando com o professor desde o início que o envolvimento deles com o projeto chama muito atenção. Além das questões que são desenvolvidas, acho que a intensidade com que eles se envolveram é muito marcante. Sendo um projeto que trata de empreendedorismo social, que visa impactar a nossa sociedade de forma positiva, eu fico muito esperançoso sobre os próximos profissionais de administração que estarão no mercado. 

Além de ter profissionais tecnicamente preparados, com as soft skills do futuro, é mais importante que tenhamos seres humanos para transformar a nossa sociedade em um lugar melhor, para transformar as formas como fazemos negócios. Eu percebi que eles esperavam realmente poder contribuir com a AdC, com a sociedade e com os empreendedores que a AdC acompanha.

Silvia – Para dar alguns números, quantos alunos participaram dessa matéria complementar?

Rodrigo – No projeto são nove alunos envolvidos, mas a produção final será de seis artigos, pois alguns estão trabalhando em grupo. A princípio, o professor direcionou para que eles trabalhassem em grupo porque eles são alunos iniciantes, mas a maior parte dos alunos quis trabalhar individualmente. Achei muito interessante a atitude deles. 

Silvia – Professor Edson, os resultados, as vivências e as experiências desta matéria complementar podem orientar projetos futuros de outras disciplinas?

Edson – Sem dúvida. Esses são os nossos primeiros produtos minimamente viáveis desta iniciativa de aproximação da AdC com a FECAP. Eu acho que a gente pode fazer bem mais do que isso. Então, por exemplo, podemos estender este mesmo tipo de abordagem da construção textual, que é uma construção baseada em pesquisa, em entendimento da realidade, um trabalho de equipe que envolve o aprimoramento da linguagem escrita, da linguagem digital.

A gente pode estender também essa parceria para outras questões, como o trabalho voluntário, que acho muito importante. Podemos pensar juntos em um modelo em que os alunos ajam diretamente na realidade, de alguma forma, que aprendam a partir dessa ação. Então é apenas um exemplo de uma estrada possível, viável e interessante para todas as partes. Tudo com muita gestão cuidadosa, com garantia de qualidade. Isso é o nosso jeito de ser, tanto da AdC quanto da FECAP.

Silvia – Eu queria fazer uma última pergunta: O que vocês enxergam que esses alunos esperam, além da publicação, da Aventura de Construir? Tem algo que nós podemos propor para eles?

Edson – Acho que é um caminho amplo. O principal ponto para jovens neste momento é a aprendizagem e experiências que levam a ela. O aprender vem da ação, mas não somente disso. Há autores que apontam que as experiências não necessariamente levam ao aprendizado, à internalização de novas competências, a novos olhares do mundo.

Então, quem sabe, a gente possa conversar sobre projetos que envolvam o voluntariado e pensemos juntos em como esses alunos vão fazer o Sensemaking. É preciso realizar ações com a orientação de pessoas mais seniores, para avaliar as lideranças, a gestão de processo, a mensuração dos resultados e a questão ética que envolve as ações.

Neste sentido, o professor Rodrigo acompanhou os alunos neste projeto, e também a professora Angélica, doutora na área de Letras, contribuiu com os aspectos da língua portuguesa.

O que quero dizer, em outras palavras, é que a gente pode pensar em projetos juntos, com a clareza que esses dois pontos aconteceram. Primeiro a ação, que inclusive pode gerar impacto social concreto. Nós queremos que isso aconteça, que a Universidade melhore o seu entorno. A FECAP é uma instituição muito Paulistana, no centro da cidade, e nós temos uma responsabilidade muito grande para a metrópole que vivemos, inclusive para as pessoas excluídas da educação mais estruturada. E também o segundo ponto: queremos que eles tirem para suas vidas um  aprendizado significativo, transformador.

A partir de Julho, confira aqui no blog os textos produzidos pelos alunos da FECAP.

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