A importância de indicadores de monitoramento: o caso do projeto “Crescendo em rede”

No Blog AdC desta semana, trazemos o artigo “A importância de indicadores de monitoramento: o caso do projeto “Crescendo em rede”” escrito por Silvia Caironi, Adriano Gaved e Bruno Athanasio, da Aventura de Construir, e publicado na coluna Impacto Social, da revista Exame, gerenciado pelo Insper Metricis, o núcleo do Insper especializado em realizar estudos sobre estratégias organizacionais e práticas de gestão envolvendo projetos com potencial de gerar alto impacto socioambiental.

Confira o artigo abaixo!

Aventura de Construir (AdC) é uma ONG que apoia microempreendedores brasileiros de periferia desde 2012. Com o Insper e a Catalise, em 2020, a instituição criou o projeto “Crescendo em rede” para a formação, incubação e aceleração de negócios de impacto social. A iniciativa envolveu 40 empresas de cinco regiões do Brasil. Após três meses de formação na metodologia do Design Thinking, para ajudar os empreendedores a levar em consideração alguns dos fatores críticos de sucesso para a própria iniciativa, os melhores planos de negócios desenvolvidos receberam um capital semente entre R$ 3.000 e R$ 10.000.

Um dos objetivos do “Crescendo em rede” era ajudar as empresas selecionadas a implantar um sistema de gestão de indicadores de avaliação de impacto socioambiental. Por isso, a AdC assumiu a tarefa de defini-lo, coletar dados periodicamente, analisá-los e apresentar os resultados para os empreendedores como suporte à tomada de decisões. Dessa forma, seria possível acompanhar a gestão interna desses negócios e, sobretudo, utilizar uma ferramenta simples e ágil para medir os resultados. Para verificar a evolução dos negócios ao longo do tempo, foi elaborado um questionário, administrado semestralmente. Em junho de 2022, foi feita a terceira rodada de perguntas.

As bases desse questionário foram definidas através da aplicação da teoria da mudança ao projeto e um benchmark internacional que analisou quais indicadores de impacto usam organizações que desenvolvem projetos similares com um público afim (E4impact e Opes Fund). Em linhas gerais, as perguntas buscaram ser curtas, simples e sem a possibilidade de respostas ambíguas, de modo a captar indicativos claros da evolução dos negócios. Embora os empreendimentos tenham objetivos próprios específicos, notou-se que a preocupação ambiental e a criação de emprego, com atenção ao trabalho digno e feminino, eram comuns aos participantes.

As perguntas buscam medir a evolução em oito dimensões:

  • Arrecadação de recursos: quanto dinheiro foi coletado por investidores?
  • Sustentabilidade financeira: qual foi a receita e o lucro?
  • Controle financeiro: a empresa conhece sua receita e seu lucro (o que não é óbvio para esse grupo de empreendedores)? Definiram um orçamento? Se sim, foi respeitado?
  • Atratividade da causa: quantas vezes a empresa foi mencionada na média (earned media)?
  • Rede: com quantas empresas desenvolveram e realizaram colaborações?
  • Impacto social: quantas empresas foram ativas na rede? Quantas pessoas trabalham nessas empresas? Quantas são mulheres? Quantas pessoas são formalizadas?
  • Impacto ambiental: quantas práticas (uso racional dos recursos, reciclagem…) foram ativadas?
  • Educação financeira: quantas atividades de formação foram realizadas junto a integrantes da rede?

Encontramos muitos desafios metodológicos para a implementação dos questionários. Para essas organizações, já não é óbvio ter medidas precisas dos próprios fatores internos. Então, não se pode confiar nos valores que eles reportam sobre os parceiros da própria rede sem verificação. Por isso, passamos de uma colheita baseada no preenchimento do questionário para uma entrevista com um consultor da AdC, para que seja possível aprofundar em caso de valores dúbios.

Os dados mostram uma queda significativa no número de respondentes na segunda aplicação do questionário, no final de 2021, e uma retomada em 2022. Do ponto de vista de indicadores financeiros internos, entre a pesquisa inicial e a última, o faturamento médio dos participantes passou de pouco menos de R$ 20 mil por semestre para R$ 24 mil, com o lucro subindo de 5,3% para 19,4%. Adicionalmente, os números indicam uma evolução nos empregos gerados, que passaram de 17 por empresa a 28,5, com um aumento dos formalizados de 25% para 67%.

Os resultados são positivos, mas, sem grupo de controle, não é possível entender se a evolução nesses indicadores foi causada por uma melhoria no processo de gestão ou decorrente de outros fatores, não necessariamente relacionados ao projeto. Trata-se de um passo adicional com o objetivo de conseguirmos aprimorar o sistema de avaliação de impacto do “Crescendo em rede” e dar continuidade a estas avaliações semestrais.

Entendemos que a responsabilidade é da AdC. Porém, quanto mais atores do ecossistema de impacto mostrarem interesse em realizar avaliação de impacto, mais possibilidades teríamos de contar com referências para criar grupos de controle por setor e causa de atuação. O desafio está lançado!

*Silvia Caironi é coordenadora geral da Aventura de Construir, economista graduada pela Universidade Católica de Milão e mestre em Gerenciamento de Projetos pela George Washington University.

**Adriano Gaved é PhD em Informática pelo Politécnico de Turim – Itália, atualmente sócio da maisQI, empresa de consultoria para ONG.

***Bruno Athanasio é cientista Social (UFF), pós-graduando em Gestão de Sistemas Integrados no Senac.

Maria Marcelino