AdC Entrevista: Kalil Farran (parte I)

Há algumas semanas tivemos a oportunidade de conversar com os ex-diretor do Instituto Camargo Corrêa. Atualmente, Kalil Farran é Consultor Autônomo em Estudos e Projetos Socioambientais e compartilhou com a gente uma visão de mundo cheia de desafios, necessidades de atitude, escuta e empatia compassiva. 

Não vamos dar mais spoiler porque a  entrevista vale cada palavra! Confira abaixo como foi esse bate papo virtuoso.

Sob a sua Diretoria, o ICC (Instituto Camargo Corrêa) teve um papel muito ativo durante a pandemia de Covid-19 em 2020. Esse papel continua em 2021?

Eu não posso mais responder pelo ICC. Mas eu diria que este momento que vivemos despertou nas pessoas o senso de cidadania e de responsabilidade coletiva pelo bem estar do “outro “. Para algumas empresas esta percepção foi além e ficou claro que não existem empresas de sucesso em sociedades que fracassam, o mundo dos negócios não está descolado da saúde da sociedade. Todas as empresas, institutos e fundações têm que reposicionar suas ações frente aos desafios que esta pandemia está trazendo, buscando um novo olhar para a sociedade. 

Qual é sua visão sobre o Brasil atual e as populações em maior vulnerabilidade diante deste cenário?

A recuperação da atividade econômica que estávamos experimentando foi interrompida. Se as previsões da Fundação Getúlio Vargas (FGV) sobre o crescimento médio do Brasil para a década de 2011 a 2020 se confirmarem “será a pior década em 120 anos”.

Combinação de instabilidade econômica com catástrofe sanitária traz um cenário assustador para as populações em maior vulnerabilidade. O desemprego disparou, o endividamento das famílias cresceu e o investimento na economia se retraiu. Isso significa um empobrecimento da população em geral, que se exacerba quanto mais nos deslocamos para a base da pirâmide, evidenciando a fragilidade das estruturas de sobrevivência das comunidades mais carentes.

Você considera que a Agenda 2030 da ONU, pautada pelos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), ainda seja atual após o terremoto que a pandemia provocou? Como podemos trabalhar para que este tema não seja somente assunto de reunião corporativa de alto escalão, mas algo realmente concreto e mensurável no dia a dia?

Em 2018 o IPEA divulga o documento – Metas Nacionais dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável com a proposta de adequação das metas globais da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável à realidade brasileira e indicadores para acompanhamento, um documento consistente e muito bem elaborado, contou com a contribuição de diferentes órgãos governamentais e centenas de gestores e técnicos do governo federal, que participaram dos debates e enviaram sugestões.

É muito cedo para se avaliar os resultados deste trabalho se considerarmos todo um novo contexto que nos foi imposto com a pandemia. Uma coisa é certa, toda a linha de base dos dados que utilizamos para construção dos indicadores, que já vinham num cenário negativo em decorrência da crise econômica brasileira que se iniciou em 2014, com a pandemia esses dados, que sustentam este documento para a aferição de resultados, tem que ser revistos, principalmente os socioambientais. Assim sendo, eu acho que os princípios que norteiam a agenda se mantêm, mas os indicadores de performance de cada ODS têm precisam ser revistos.

Outra questão importante que vocês colocam é quanto ao compromisso empresarial e cidadão no atingimento das metas definidas pelas ODS. Posso estar equivocado, mas o que percebo é que esta é uma conversa entre os iguais, os ODS e as metas não estão claras para a sociedade, ainda não existe um entendimento do que é e para que se definiram as ODS. Assim existe um esforço muito grande do setor produtivo de tentar transformar ações (que já são obrigações legais decorrentes de processos de licenciamento ou necessários ao processo de produção) em atingimento de metas dos ODS. Tenho dúvidas sobre o compromisso do setor produtivo do país em fazer valer essas metas. Para mim ainda persiste uma distância bastante grande entre o que se define por sucesso econômico e desenvolvimento socioambiental.  

Em muitas iniciativas lançadas durante a pandemia ficou clara a necessidade de unir esforços, de trabalhar junto para responder às emergências e necessidades. Na sua trajetória, como você enxerga a construção de redes? Tem alguma experiência sobre isso para compartilhar o processo, os resultados e sugerir algo neste sentido?

O conceito de rede hoje é bastante usado, mas seu uso nem sempre se refere a mesma ação, apresentando características distintas.

As redes oficialmente constituídas, que eu conheço, são formadas por instituições do terceiro setor, por órgãos públicos ou pela academia com temas, os mais diversos. Em alguns casos o objetivo é de trocar experiências e formar conhecimento unindo ideias e recursos em torno de valores e interesses compartilhados. Em outros casos as redes são formadas com caráter bem operacional articulando agentes de mesma natureza em diferentes geografias para a realização de uma ação comum.

Gostaria de falar sobre minha experiência recente no apoio ao enfrentamento da pandemia e como construímos uma rede que sai do teórico metodológico para atingir objetivos bem práticos.  

Primeiro que uma rede operacional começa dentro de casa. Os parceiros internos da empresa, instituto ou fundação têm que estar alinhados e comprometidos quantos aos propósitos e resultados esperados. Esses objetivos e resultados esperados têm que estar claros para todos. Juntos se identificam as competências e possibilidades de agregar inteligência à causa. Assim se dá credibilidade ao projeto e permite que se busquem novos parceiros externos para aquela rede em específico.

Ficou claro para nós que a “causa“ precisa provocar a empatia compassiva, a percepção de que o outro precisa de ajuda e se colocar à disposição, no parceiro, seja um líder comunitário, uma organização do terceiro setor ou uma empresa, que vai compor a rede.  

Na sua experiência pessoal e profissional, o que significa olhar para o outro? Seja o outro o beneficiário final ou parceiro de um projeto, ou então pelo potencial e protagonismo da pessoa?

Nós profissionais que trabalhamos com causas sociais e ambientais aprendemos a entender a realidade de forma fracionada, em temas, como nos foi ensinado. Quando na verdade a realidade é integrada e sistêmica. Olhar para o outro é mais uma postura do que um ensinamento. É a permissão que nos damos de perceber de maneira mais ampla e harmônica como o “outro” constrói soluções, padrões e comportamentos dentro das vulnerabilidades que ele vivencia. E a partir daí agregar inteligência, inovação e recursos, fomentando práticas que o outro já desenvolve. Para mim este é o ponto de partida que nos possibilita incentivar o microempreendedorismo de baixa renda. 

Na AdC trabalhamos com desenvolvimento territorial inclusivo e o ICC sempre foi e ainda é muito ligado e radicado nos territórios onde atua. O que você aprendeu nestes anos e gostaria de compartilhar por considerar fundamental para realizar este trabalho?

Primeira coisa. O Investimento Social Privado não pode ser entendido como uma ação filantrópica, através de doações, que ameniza temporariamente as necessidades básicas de uma comunidade. Isso não é legado, como também emprego e renda não são legados. Legado é desenvolver a capacidade empreendedora de um cidadão, de uma comunidade. 

Como urbanista nunca consegui dissociar as diferentes dinâmicas de apropriação do território da situação socioeconômica das comunidades, principalmente aquelas mais vulneráveis que ocupam as franjas periféricas das grandes cidades e as áreas urbanas mais deterioradas, mesmo as mais centrais.  Nestas regiões o desenvolvimento territorial espelha o desenvolvimento socioeconômico das comunidades. Faz todo o sentido a inclusão socioeconômica nestes territórios de seus microempreendedores. Precisamos aprender a ter esta leitura integrada. 

Conheci uma comunidade historicamente fundada em um lixão periférico que conseguiu fazer disso uma grande oportunidade de negócios e de subsistência, independente da ausência do poder público e de infraestrutura básica. Conheci mestres, doutores e artistas plásticos que nasceram e se criaram ali, no lixo, que hoje são líderes comunitários que representam e advogam pelos direitos essenciais deles. 

O olhar para o outro de que falamos a pouco, consegue perceber as iniciativas empreendedoras que driblam as dificuldades cotidianas que existem entre os mais vulneráveis. Líderes comunitários que de fato representem os anseios daquela comunidade devem ser estimulados.    

Para encerrar, o que mais precisamos levar em conta no trabalho do Terceiro Setor neste ano 2021 que seguirá nos impondo diferentes desafios?

A humildade de perceber o quanto somos vulneráveis nos igualando sem distinção a todos os seres humanos. Deste lugar comum só avançaremos com soluções inovadoras, com resiliência. Se pretendemos continuar a trabalhar com o empreendedorismo comunitário e a busca de infraestrutura digna para as comunidades mais vulneráveis temos que considerar em ambos os casos tecnologias e soluções inovadoras de baixo custo.

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